Testemunhos e Opiniões

    Muitas pessoas formam juízos de valor acerca das pessoas que decidem levar a cabo uma Interrupção voluntária da Gravidez. Por questões éticas ou morais, isso cabe a cada um. No entanto, muitos desses juízos formam-se porque não se sabe as verdadeiras razões pelas quais as mulheres decidem fazer um aborto nem sequer aquilo que elas sentem. Ou, simplesmente, porque vão contra as nossas crenças. 

    Por essa mesma razão, decidi partilhar alguns testemunhos reais de pessoas que realizaram uma IVG, bem como algumas opiniões. Alguns, econtrei-os na net (link abaixo indicado), outros, são de pessoas que os partilharm directamente comigo. Nenhuma das ideias dos testemunhos aqui presentes foi alterada - a única coisa que modifiquei foram palavras que estavam mal escritas e com má acentuação/pontuação, de modo a que seja mais fácil para quem lê conseguirem compreendê-los.

    O meu muito obrigada às pessoas que perderam o seu tempo e foram fortes o suficiente para partilhar as suas situações comigo - sei que por vezes não é fácil.

 

Se quiseres podes também tu partilhar o teu testemunho ou dar a tua opinião, contactando-me. Não importa se és mulher/homem, a favor/contra. Desde que sejas respeitos@, partilharei o teu testemunho com prazer. Não te preocupes, pois vou manter a tua identidade anónima a menos que digas o contrário.

:)

 

 


Julieta, 8 Março 2017

 
    Hoje li que escrever cura.
    Mas tal como um desabafo só é libertador quando nos sentem e nos ouvem, escrever por si só não nos cura. Ajuda na cura se formos lidos, compreendidos e tivermos o apoio dos outros. Aquele apoio que não conseguimos ter quando passamos por aquilo que nos leva a escrever.
    Por isso decidi tornar público relatos do meu profundo amor, profundo desgosto e profunda violência que atravessei no último ano da minha vida. A presença constante da minha tristeza talvez só possa dever-se ao facto de a única pessoa que tinha o meu coração nunca me chegou a sentir, não me soube ler e nunca chegou a ter espaço para me ver.
 
    Espero que as minhas palavras, que as dirijo a uma pessoa só, possam ser lidas por outras tantas pessoas e que isso me ajude a libertar o meu coração.
 
    Escrevo também porque quando atravessei esta situação passei dias a pesquisar sobre o tema, a ler fóruns e testemunhos de outras pessoas, de outros países, de outras crenças, mas muito poucas foram as histórias que se pudessem aproximar à minha. Este é o meu testemunho sobre uma triste história que espero que venha a servir de análise e pensamento a um debate mais profundo sobre a IVG e a violência psicológica, numa perspectiva contrária à mais comum: a não aceitação de um homem perante a escolha de uma mulher não estar preparada para a maternidade.
 
    Tivemos a confirmação que estávamos grávidos no dia 16 de Julho, sábado, em tua casa. Embora me estivesse a sentir mal fisicamente, e ansiosa, confesso que fiquei contente. Pela primeira vez, imaginei vida com alguém e aquelas banalidades das pessoas. Já me imaginava grávida de um segundo, com o primeiro na mão e com os cães de um lado para o outro, contigo, sempre, sempre, a tomar conta de nós, como tantas vezes pintaste.
    Depois de me confrontar com uma realidade biológica que até então desconhecia, confrontei-me - talvez pela primeira vez - com uma situação que dependia só de mim no seu todo. O espelho da responsabilidade física e psicológica inerente às condições sociais, uma autêntica reviravolta à minha vida, percebendo que só de mim poderia depender a sobrevivência do meu amor. Senti-me ao abandono, às voltas em mim mesma. Foram os dias mais longos da minha vida; a cada hora sentia uma coisa nova, a cada dia o meu corpo mudava e o meu desespero na solidão teimou em crescer.
 
    Acompanhaste-me na minha primeira consulta. Quando saí partilhei contigo o que estava a sentir em relação à minha gravidez e a tua raiva aumentou a cada palavra que saiu da minha boca. Questionaste o porquê de eu ter arriscado não me ter protegido - na tua perspectiva, arriscaste porque estarias pronto uma vez que eu era a mulher da tua vida -, disseste que o que eu pensava fazer era extremamente feio e maldoso e que nunca pensavas que eu seria capaz de o fazer. À medida que ias bebendo o teu litro de vinho - o meu enjoo era tal que não te conseguia acompanhar - as tuas palavras foram tornando-se mais agressivas. Já me estavas a culpar por algo que eu ainda não tinha feito e ainda não tinha realmente decidido. Cheguei a dizer-te que de futuro podíamos pensar em termos bebés.     Disseste que não. Ou era agora ou nunca.
 
    Parecia que te tinhas esquecido que para poderes olhar para o nosso projecto de vida, tinhas que fazê-lo através de mim, ou seja, olhar primeiro para mim, respeitar a minha liberdade, conhecer-me nos meus medos - que não te disponibilizaste nunca a sentir.
    Não se diz a uma mulher - nem nesta situação nem noutra qualquer - as coisas que tu disseste. Um tema tão delicado e tão feminino. Questionei-me várias vezes que tipo de pai serias tu de uma suposta menina, como tanto querias, que perante um tema destes se estava a comportar de forma tão irascível.
    Chegaste a usar as minhas próprias palavras, com que te descrevia o que me fazias, contra mim, como se eu te estivesse a fazer o mesmo.
 
    Não me abraçaste uma única vez. Uma das minhas maiores dores, foi ter que me estar sempre a despedir de ti e a explicar do meu lado, o quanto eu precisava de ti e do teu colo, que cada vez que tentei ter, foi um simples insucesso porque estavas "magoado" e também "tens sentimentos".
    Como é possível tanta dor ser-te tão invisível?
 
    Ao contrário do que agora dizes, eu nunca te pus de parte. Foste bem claro que não querias acompanhar-me nem destruir o equilíbrio que eu tinha à minha volta (não sei se é suposto agradecer tamanho bondade..!).
    As lágrimas que me caíram e o que eu pedi por ti, só quem esteve comigo sabe. Um abraço teu, naqueles dias, teria valido tudo.
 
    Nunca pus em causa que tu estivesses a sofrer, bem pelo contrário. Estava grávida e devastada e ao mesmo tempo preocupada contigo. No dia em que tive uma segunda consulta no hospital e onde fiz uma segunda ecografia, e uma segunda consulta de planeamento familiar, falei com médicos e enfermeiras, resolveste tornar público via facebook e manifestaste o teu luto com um quadrado preto e uma música que é uma dicotomia entre inocência e violência; uma canção de embalar uma criança, que lamenta o infortúnio que é um filho ter que suportar o abandono de uma mãe. Estavas a punir-me por matar a tua filha. Tornei-me uma assassina. Querias que eu me sentisse mal. Bom trabalho!
    Espero que os likes te tenham embalado a tristeza. Não tenho palavras para descrever a exposição que deste de um tema que faz parte da nossa (minha) esfera privada. Não entendo como te manténs impávido perante isto.
    Tinha mais 3 dias de espera para tomar a minha decisão final. Foram os piores dias da minha vida. Intercalados com as tuas manifestações depravadas, mal me falavas.
 
    Nunca tive tão triste e tão sozinha em toda a minha vida. Perguntaram-me se no tempo de espera (ainda esperei umas 2 horas) se não queria companhia dos familiares que me acompanharam. Disse que não. Preferi ficar sozinha. Doravante, esta tornou-se a minha vontade.
Talvez o meu desespero fosse uma manifestação de instinto maternal. Talvez a minha tristeza de um coração partido e a minha angústia por não me sentir amada por ti. Chorei que nem uma criança.
    Interrompi a minha gravidez e vi-me num estado que nunca tinha visto; até a médica me veio dar um beijo. As enfermeiras acolheram-me como mães e até senhoras que lá estavam e tinham interrompido gravidez falaram comigo. “Um homem que maltrata uma mulher numa situação tão delicada como esta, não merece o seu amor” - ouvi eu. Passado 1 dia, sugeriste que era melhor ir ter contigo, quase num tom de chantagem porque se não, "não tínhamos salvação possível" e era o mínimo que podia fazer por ti e pela nossa relação. Consegues hoje perceber que a minha ida pôs em causa a minha dignidade e integridade física e psicológica?
    Precisava do teu colo, e fui procurá-lo. O meu amor sobrepôs-se às minhas dores físicas e emocionais, que tu jamais poderás reconhecê-las (até chegaste a desvalorizar as minhas dores!). Reflexo disso foi o que aconteceu quando cheguei ao pé de ti: sozinha na tua sala, perdida, com dores, a chorar desalmadamente enquanto tu, na cama às escuras, dizias que agora íamos ter que passar por isto, como se eu tivesse de castigo. Com que moral é que tu me falas em dignidade?
 
    Não é preciso ser-se mulher para se perceber que as tuas palavras são suficientemente pesadas para deixar alguém na merda, espero que hoje consigas entender. Um homem sensível - como tu te intitulas - deverá entender.
 
    Continuei a sentir-me sozinha porque te senti distante e zangado. Não é pela distância física, é pela sensibilidade que temos em chegar ao coração uns dos outros.
 
    Hoje, continuas sem me dar um abraço, sem me pedires desculpa por me teres diminuído como ser humano e pior, como mulher. 
    A minha gravidez desarmou-me e não me permitiu mais voltar a mim. Ao ponto de me deixar atravessar este túnel negro e de extrema violência psicológica. Agora posso contar que ouvi as seguintes frases:
- Ainda vamos a tempo de remediar a situação. Eu apoio-te no que for preciso.
- Obrigada por seres a mãe dos meus filhos.
- Nunca pensei que fosses insensível ao ponto de fazeres uma coisa destas.
- Quem és tu afinal? Eu não te conheço.
- Se não estás preparada, podes passar-me o filho para as mãos depois de o teres e eu tomo conta. Há muitas histórias de homens que tomam conta dos filhos sozinhos.
- Ao menos traz-me o embrião num frasco em formol para eu me poder recordar que um dia na vida tive um filho.
- Ou uma ecografia, nem a ecografia posso ter? Para me lembrar que algum dia fiz alguma coisa boa a vida.
- Estás a matar a minha filha.
- Acredita que não queres que eu fale contigo. Não quero estragar o equilíbrio que arranjaste à tua volta. Estou extremamente magoado.
- Queres que eu esteja presente para quê? Eu vou andar aos berros e não vou deixar que façam o que tu queres. É isso que queres?
- Tu afastaste-me e puseste-me fora do processo.
- Tu magoaste-me.
- Eu também tenho sentimentos. Todos se esquecem que eu também estou a sofrer.
- Não quero mais falar sobre este tema.
 
    Não sei se algum dia vou conseguir deixar de me sentir ligada a ti, de uma forma que tu jamais compreenderás mas espero conseguir encontrar a minha calma, a minha paz e a minha alegria, de quem já sinto saudades. Estou cada vez mais próximo e toda e constante revisão à história me ajuda. Nunca me senti tão mulher e nunca quis tanto ter bebés.
    Agora pergunto-te eu: quem és tu afinal?
 
    Qualquer mulher que interrompeu uma gravidez, qualquer mãe, qualquer homem, qualquer pessoa minimamente sensível, tem capacidade de compreender a delicadeza do tema. E só uma mulher sabe realmente o que é fazê-lo.
    Definir um embrião como uma pessoa com direitos iguais ou superiores aos de uma mulher é uma aberração. O primeiro direito de um bebé é ser desejado e acolhido numa família estável, recheada de amor e polvilhada de empatia e a maternidade é um assunto que diz respeito à mulher e à vida da mulher. Um grande senhor um dia disse-me: “A mulher compromete-se e o homem participa”. Agora percebo, melhor do que nunca. 
 
    A culpa e o corredor do julgamento pelo qual me fizeste passar, não correspondem às convicções que fui ensinada, aos princípios e valores humanos que devemos ter no trato humano, o bom senso e a empatia que são pressupostos naturais dos seres vivos.
    Uma decisão destas é uma decisão íntima e pessoal que só pode receber apoio e solidariedade.
 
    Amar é respeitar e cuidar. Não há espaço para ter um bebé sem estes valores.
    A interrupção de uma gravidez não é um crime. Crime é não saber amar. 
 
    Obrigada por me acompanharem.
 
Julieta, 31 anos
 

 


Ana

    Olá, o meu nome é Ana, tenho 25 anos e fiz um aborto. Isto aconteceu em 2010, e gostava que soubessem que o acto em sim não é fácil, mas melhora muito com o tempo.

    Eu tenho epilepsia, e durante muitos anos a médica basicamente me proibiu o uso da pílula contraceptiva, porque afirmava que, por causa da     doença, não a devia tomar. Dizia que iria afectar o efeito dos outros medicamentos que eu tenho obrigatoriamente que tomar. No entanto, depois de pesquisar na internet e ver que existem mulheres com o mesmo problema que eu que tomam a pílula, vi que não era bem assim. Que a única coisa que isso pode fazer é reduzir em alguma percentagem o efeito dela.
 
    Então, fui falar outra vez com a médica, em 2008, e depois de uma conversa com ela acerca do que descobri, ela passou-me a pílula, dizendo-me os cuidados que eu deveria ter. Até aí, muito bem. Durante os dois anos que tomei a pílula, nunca tive nenhum problema, e normalmente era o único contraceptivo que eu usava, intercalado com o preservativo.
 
    Há sempre alturas do ano em que eu tenho muitas convulsões, apesar de tomar medicação. É algo que já estou habituada, e já é normal. Um mês depois disto, faltou-me o período, e pensei que pudesse ser do sistema nervoso, por isso deixei passar uns tempos, a ver se aparecia. Como já tinham passado três semanas, fiz um teste, só para tirar a “cisma”. Fiquei parva, porque deu positivo… fui logo repetir o teste, e escusado será dizer que voltou a dar o mesmo.
 
    Não sei bem como aconteceu, até porque desde que estou com o meu companheiro sempre mantive relações durante esta altura e com a mesma medicação, e nunca tinha tido qualquer problema. Mas lá aconteceu, e eu tinha que lidar com a situação.
 
    Eu vivia com o meu companheiro há cerca de um ano. Sou empregada de escritório e ele trabalha na Worten. Não passamos problemas, mas pagamos 500€ de casa todos os meses, seguro do carro, água, luz e comida, entre outras coisas… e como estamos a viver juntos há pouco, ainda nos estamos a compor. Como também estava a tirar contabilidade, estava em vias de promoção e ele trabalhava a tempo inteiro, e só planeávamos ter um filho lá para os trinta… escusado será dizer qual foi a solução.
 
    Conversamos, e decidimos que no momento um aborto seria a melhor opção. Não foi “fácil” como toda a gente pensa que é para “pessoas como eu”.
 
    Foi muito revoltante quando uma enfermeira me disse, no dia do aborto, que eu podia muito bem desistir dos estudos e ter um filho, “já que tinha tido responsabilidade para o fazer”. Eu estava completamente “a ferver” por dentro, e o meu companheiro tinha-se levantado da cadeira a dizer “mas a senhora acha-se mais do que alguém aqui dentro?”, completamente fora de si. Levantei-me muito calma e lembro-me perfeitamente do que lhe disse, mesmo à frente de todas as outras pessoas que lá estavam, não sei se também para abortarem: “posso parecer nova, como muitas das raparigas que vêm cá para abortar, porque pareço ter menos uns cinco anos do que o que tenho. Mas não tenho, e vivo com o meu companheiro. E a senhora não é ninguém para me dizer o que eu devo ou devo fazer sem saber como é a minha vida. E mesmo que soubesse, continuava a não ser ninguém. Da última vez que olhei, Deus ainda estava no céu e não dentro do corpo de uma pessoa que se julga Ele.” Parece impossível um profissional ter um comportamento destes.
 
    Se eu já estava nervosa porque ia fazer um aborto, ainda fiquei pior. O médico soube do que se passou e conversou comigo, a ver se eu ainda tinha certezas do que queria fazer. Lá acabei por me acalmar e disse que sim.
 
    Fiz um aborto cirúrgico, porque não queria ter que sentir dores ao longo de dias. E por acaso não tive dores quase nenhumas, à excepção do próprio dia. O processo correu bem, apesar de eu estar um bocado contraída por causa dos nervos.
 
    O meu companheiro esteve comigo o tempo todo, e apoiou-me sempre. E digo, quem dera a muitas raparigas ter a mesma sorte que eu neste aspecto.
 
    Não foi fácil de fazer, mas também não foi a coisa mais difícil do mundo, porque acho que o bebé só é vida passado algum tempo, passado o tempo que consegue sobreviver fora da mãe. Pensem mal de mim à vontade, mas é a minha opinião, e ninguém tem nada a ver com isso. Às vezes ainda penso nisso, como é lógico, e também falo disso com o meu companheiro.
 
    Só digo às pessoas que pensam fazer o mesmo que eu que tenham muita coragem, que é precisa… mesmo quando se tem a certeza como eu.
 
 
Ana
 
 
 

José

    Olá, o meu nome é José. Não tenho grande jeito para escrever, mas gostava de partilhar uma coisa convosco… A minha companheira fez um aborto. Nós vivemos juntos, mas por razões económicas, profissionais e estudos, resolvemos que abortar era o melhor na altura.
 
    A Ana tem epilepsia, e talvez tenha sido por causa das crises que tinha na altura que a pílula não fez efeito. Mas não havia grandes condições na altura nem disponibilidade.
 
    Fui com ela às consultas todas. Até entrei com ela quando ela foi fazer o aborto, apesar do médico não ter gostado muito da ideia.
 
Fiquei extremamente chateado com uma enfermeira que se quis armar em “sabe-tudo” e dar a sua opinião, o que eu acho que demonstrou uma grande falta de tacto da parte dela. Por acaso a minha companheira é uma pessoa segura de si e sabia aquilo que queria, porque se fosse uma pessoa mais sensível que não estivesse confortável com a ideia, tinha ficado desfeita.
 
    Mas a Ana ainda me acalmou e deu uma resposta digna à enfermeira, senão nem sei o que eu lhe tinha dito… Fiquei mais nervoso que ela e ela é que precisava mais do apoio. Estou muito orgulhoso.
 
    Ao contrário do que muitos pensam, os homens também sofrem. Eu queria ser pai, mas talvez fosse cedo de mais. Prefiro que aconteça numa altura em que eu possa dar ao meu filho aquilo que ele merece.
 
    Isto pode parecer pouco modesto da minha parte, mas sinto-me orgulhoso de mim, enquanto homem. É bom saber que tive a coragem de fazer o correcto e acompanhar a minha companheira do princípio ao fim, sem hesitar nenhuma vez, ao contrário do que muitos outros fazem… Não sou casado, mas também fiz um voto – “no melhor e no pior”, e tenciono cumprir. Só gostava que todos fossem como eu fui!
 
 
José

MMB - 5 Março 2010

    "Fiz uma IVG. Tenho 23 anos, sou estudante de Design, não sou de classes sociais baixas, nem sou pouco informada, nem tão pouco os meus pais são analfabetos. Engravidei por pura irresponsabilidade, como por pura irresponsabilidade tenho lidado com a minha vida e o meu curso. O pensamento só acontece aos outros, e o “bolas esqueci-me de tomar a pílula durante três dias… bem, coito interrompido e não há-de ser nada” foi o que me bastou para agora ter que carregar com esse peso o resto da vida. Tenho namorado há quase dois anos, e desde dos 18 que tomo a pílula. Tomei somente a pílula do dia seguinte duas vezes na minha vida. A consciência que a descarga hormonal da pílula do dia seguinte é enorme esta bem estruturada na minha cabeça.

    Não me orgulho de o ter feito mas também não me envergonho. Foi uma decisão de consciência e dolorosa, como desconfio que seja para quase todas as mulheres que o façam. É duro por termo a vida de algo que cresce dentro de nós, que começa a crescer um amor estranho vindo não se sabe de onde e nem se sabe pelo que, já que nada é visível ainda e nos põe a sorrir sem queremos como as pessoas que estão apaixonadas. Na ecografia que tem que se ter não tive a melhor assistência para uma IVG. A médica fez questão de virar o monitor para mim e dizer: “esta a ver o embriãozinho?”. Creio que não devam fazer isto. Uma mulher que faz uma IVG, não é um monstro e não precisa que os profissionais de saúde se armem em Deus para as querer castigar. O castigo já vai ser suficientemente grande para o resto da vida. Mas eu vi, vi o que poderia ser o meu primeiro filho. E doeu! Como disse muitas vezes e volto a dizer, é bem feito passar por aquilo que passei e passo, as coisas são como são, fui irresponsável e agora arco com as consequências, já mais me vitimizei neste processo todo, nem seria capaz de o fazer. Quando fui à primeira consulta para a IVG, olhei à minha volta e vi meninas e mulheres. Meninas sozinhas, sem parceiro ou amigas para as acompanhar, e vi mulheres já feitas e crescidas, sem companhia também. Havia só mais um casal como eu na sala, mas vi a menina, e era tão novinha… e com um ar bastante assustado. Quem olhou para mim de fora e me julgou achou que me estava perfeitamente nas tintas para o que estava a fazer, pois ria-me e brincava com o meu companheiro. É a minha maneira de ser, para não chorar, rio.

    A segunda consulta não foi a mais dolorosa. O mais doloroso foi ver o embrião na primeira ecografia. Vi o mesmo casal que tinha visto na primeira consulta, e vi as mesmas mulheres e meninas sozinhas, sem ninguém para as apoiar. E isso talvez fosse o que me custasse mais nessa consulta. Onde estavam os pais das crianças? Porque deixavam meninas sozinhas, sem apoio? Sabia que o sofrimento físico seria intenso e vi estas meninas sozinhas. E quando começassem as dores, quem cuidaria delas? Não é justo, nem tão pouco respeitoso deixar uma mulher que passa por este sofrimento sozinha.

    Infelizmente, a minha IVG não correu bem, e passado quatro dias tive que ir de urgência para o hospital porque as dores eram de tal maneiras insuportáveis que achava que ia morrer, nem percebi o que se passava supostamente já poderei retomar a minha vida normal nesse dia. Quando fui para a sala de triagem fui bastante mal recebida pela enfermeira. Bastou ouvir “fiz uma IVG” para a descriminação estar estampada no rosto dela. Senti que estar-lhe a gritar “por favor ajude-me, estou cheia de dores” era a mesma coisa que lhe dizer: “olhe querida, estou com uma ligeira dor de cabeça mas estou óptima”. Ela respondia-me muito secamente que era normal do tratamento que estava a fazer. Mas eu sabia que não era normal, porque a medica que me fez aplicação disse que se as dores não passassem com os medicamentos, teria que ir para o hospital. E eu, entre gemidos de dores, respondia-lhe que não era normal. Lembro-me da lentidão a fazer tudo, da falta de atenção que teve por mim, da moleza com que fez tudo. Supostamente, era para ser posta a soro, então a Sra. Enfermeira foi fazer a cama á maca para me poder deitar. Via-a de longe, novamente mole e sem interesse no meu estado e, para cúmulo, a falar ao telemóvel, como se não tivesse uma pessoa ali com dores mas sim um drogado qualquer com uma enorme “moca”.

    Uma das minhas melhores amigas é enfermeira, e sei que poderia ter levado logo uma injecção para atenuar as dores, que as coisas podiam ter sido tratadas com muito mais eficácia. O que se passou ali foi uma pessoa que se julgou Deus ou quem quer que fosse, e se achou no direito de castigar uma mulher por ter feito um aborto. Será que estas pessoas não percebem que nós teremos o maior castigo de todos? Fomos nós próprias e as nossas escolhas que nos castigaram.

    Felizmente a médica chegou rápido e a raspagem foi feita rapidamente, mesmo sem anestesia. Mas foi tudo tão rápido que nem me importo de não ter levado anestesia, porque mesmo com essa parte adormecida continuaria a ter dores e o processo, em vez de ter demorado menos de 5 mintutos, demoraria mais de dez. Fiquei logo bem. A outra enfermeira (ou auxiliar) que estava presente também me fez sentir o quão desumana era com o seu tratamento indelicado. Ainda meio desorientada e confusa, perguntei pelo penso que tinha ideia que no início ela tinha me dado ou posto em algum lado. E claro que ouvi respostas brutas e frias do género: “Vá, levante-se daí, a médica já lhe disse para levantar. Já lhe dei o penso, não sabe dele?”.

    O que mais me espantou foi o facto de a primeira enfermeira ser negra e esta ser de um país de leste. Conhecendo a mentalidade deste nosso país, provavelmente também elas em alguma altura da vida foram descriminadas, como era possível fazer o mesmo a uma mulher numa altura tão difícil? Não é humano. Se não concordam com a IVG, tudo bem nada contra, mas no local de trabalho e tendo a profissão que tem não podem ter este tipo de comportamentos. E surgem-me na cabeça mais uma interrogação: será que estes profissionais de saúde têm algum tipo de formação para lidar com estes casos? Até compreendo que lhes seja difícil, pessoalmente, entender o porque de uma mulher aparentemente saudável, de 23 anos, ter feito um aborto. Mas isso é a nível pessoal, e não podem trazer convicções pessoais para o trabalho e castigar mulheres, só porque não concordam com as escolhas delas.

    Um dos maiores dramas das consultas de IVG, são as reincidentes mulheres e meninas que já fizeram um, dois, três ou mais abortos, que deixaram de usar métodos contraceptivos. Essas são altamente julgadas e criticadas. Mas na minha opinião, as mulheres que se sujeitam de corpo e alma tantas vezes a este choque, são mulheres que não estão bem. Deveriam ter este filho? Provavelmente seriam crianças rejeitadas, que não receberiam atenção nem amor, mulheres que têm filhos como que tem animais. Se fossem meninas, muito provavelmente seguiriam as pisadas da mãe. Se fossem meninos, muito provavelmente seriam homens que fugiriam às responsabilidades quando aparecesse uma namorada grávida.

    Não se preocupem em criticá-las: a maior dor é para elas. Talvez porque chegará uma altura em que queiram ter realmente filhos e já não possam, talvez porque a vida nos esteja sempre a dar lições, e um dia elas vão sofrer mais que qualquer pessoa. Preocupem-se a prevenir e investir o tempo a informar jovens sobre a sexualidade.

    Nestes últimos dias tenho procurado pela internet histórias e fóruns sobre esta situação, e encontrei as mais variadíssimas opiniões. O que mais me chocou foi ver desabafos de mulheres que passaram por isto e ver comentários de pessoas a chamarem-lhes vadias e todos os géneros de ofensas. Acredito que para uma mulher que perdeu o filho pela mãe natureza seja difícil aceitar outra mulher que o tenha feito por livre vontade. Mas quem lhe garante que as condições da primeira eram iguais às da segunda? Quem são as pessoas para julgarem quem quer que seja?

    A minha mãe votou "sim" no referendo, mas disse sempre que nunca o faria embora achasse que cada mulher pode escolher. O feto que matei ainda não tinha cérebro, embora já tivesse batimento cardíaco. Dizem que ninguém tem o direito de tirar a vida a outro ser, mas será que temos o direito pelo erro nosso trazer ao mundo uma criança em que o futuro não se sabe? O mundo está cheio de meninos abandonados, está cheio de mães e pais frustrados que descarregam em cima dos filhos essas mesmas frustrações. Não estarão também a matá-los aos poucos? Não quero olhar para um filho e sentir que ele era a consequência da minha irresponsabilidade, e por isso não realizei os meus sonhos. Seria mais uma no leque de mães histéricas e egoístas que descarregam nos filhos as próprias frustrações? Pelo o que me conheço, seria. Os filhos que um dia terei serão educados num lar com amor, respeito e de pessoas bem com elas próprias, para que um dia sejam homens e mulheres equilibrados e íntegros. Não sou má pessoa por ter feito um aborto. Apenas sou uma mulher que escolheu ter primeiro uma vida e depois dar a vida a outro ser.

    Às mulheres e meninas que passaram por isto: muita força e não fiquem a culpabilizar-se para sempre, sigam em frente.

    Às meninas e as mulheres que nunca passaram por isto e tem tendência a esquecer-se dos meios contraceptivos como a pílula: informem-se nos centros de saúde. Centros de saúdes como o do Lumiar tem uma óptima assistência da consulta de planeamento familiar. Uma equipa de médicas e enfermeiras que nos fazem sentir que não somos apenas um número mas uma pessoa. Informem-se sobre o implante subcutâneo tem a duração de 3 anos, que é super eficaz e é distribuído e aplicado gratuitamente no planeamento familiar.

    Aos homens: nunca deixem uma mulher sozinha nesta situação, lembrem-se que é vossa companheira e que, provavelmente tem mãe, irmãs e filhas e não gostariam que elas passassem por isto sozinhas.

Os melhores comprimentos,

MMB."

 


Suh - 27 Setembro 2010

    "Oi... Também fiz uma IVG recentemente e, sinceramente, nunca pensei que me fosse custar tanto psicologicamente. Ainda por cima estou a passar por isto sozinha. Tenho uma vontade enorme de desabafar com a minha mãe ou com uma amiga próxima mas, por outro lado, falta-me coragem para contar. E tão difícil passar por isto. Não me sai da cabeca a segunda ecografia, de ver o embrião. Depois daquilo so me apetecia ir para casa e continuar com a gravidez mas, infelizmente, não podia mesmo fazer isso.

    Há dias em que me arrependo do que fiz, e outros que acho que não tinha mesmo outra solução. É normal passar por isto e sentir-me assim tão mal com o que fiz, mesmo sabendo que nao tinha outra solução?

 

(...)
 

Suh"

 


Tuareg - 14 Março 2011

    "Boa noite... eu fiz uma IVG na sexta feira passada na Clínica dos Arcos através do protocolo com a Estefânia.

    A IVG foi cirúrgica, dado já o avançado da gravidez, porque eu esperei muito, pensei muito... tentei por tudo não a fazer...

    Na Clínica trataram-me muito bem e foram carinhosos. Principalmente porque eu estava num estado lastimoso. Vou hoje ao médico falar com ele e sei que lhe vou dar um desgosto... mas preciso de sentir que estou bem fisicamente e que tudo vai voltar ao normal.

    Eu não posso usar praticamente nenhum contraceptivo a não ser o preservativo porque tenho um Mioma. Naquela noite tivemos uma distração que dei logo na hora. Tomei a pílula do dia seguinte... e não fez efeito!

    Tenho 36 anos.... Sei que vão ficar chocadas com a minha idade mas é a verdade. Fiquei encurralada. Fiz a IVG no último dia do prazo, porque até estar na marquesa ainda pensei em desistir. Eles chegaram a perguntar-me isso, porque o meu racional estava ali a dizer "tem de ser", mas o emocional dizia-lhes "não me façam isto".

(...)

    Estou num sofrimento horroroso e acho que nunca mais vou ficar bem... Inicialmente ponderei tê-lo mesmo a sério, estava mesmo decidida, mas o pai fez-me chantagem psicológica a tal ponto que em entrei em colapso. Fiquei isolada num processo altamente cruel.

    Ele foi de uma crueldade comigo incessante... Cheguei a ter várias perdas de sangue por causa das discussões que houveram... Ouvi coisas horríveis, tudo porque eu não queria abortar. Como compreendem, tenho o sonho de ter um filho. Não estava a pensar nisto agora, nem muito menos quis alguma vez ter um filho com este homem. Mas aconteceu...

    Negou-se a dar qualquer opoio, disse que nem mesmo o iria conhecer nem ver nunca. Fiquei sozinha. Numa altura da minha vida em que estou sem receber ordenado, trabalho a recibos verdes, sem direito a nada nem apoios do estado para a maternidade... Sou profissional liberal...

    Comecei então a ter de ponderar a hipótese contra tudo o que eu sentia e pensava. Fiquei num beco sem saída. Aconteceu sexta-feira e estou de rastos, com uma dor imensa que jamais se apagará da minha alma... Queria tanto ser mãe um dia... A gravidez não foi planeada, tomei a pílula do dia seguinte e não funcionou. Eu não tinha qualquer relacionamento com ele, apenas ocasional para sexo.

    Nunca mais vou ser a mesma - isso eu sei. Morreu uma parte de mim naquele dia... Vivo o dia a dia em sofrimento e angústia... Nem imaginam a quantidade de gente a fazer. Fiquei impressionada! Não parei de chorar desde que entrei até que saí. E choro todos os dias...

    Tenho andado a ver fóruns, mas este foi aquele em que me revi e me ajudou mais. Estou com acompanhamento psicológico e tenho tido muita ajuda de uma prima, de uma amiga e dos meus tios, que me acompanharam...

    O futuro não se revelava fácil se seguisse com esta gravidez. Ia ser muito complicado, e eu não tinha muitas ajudas. Nem sequer tenho mãe. Ele não me daria nada e eu nem sequer sei como nos ia sustentar aos dois... Ainda por cima grávida, e à procura de emprego ia ser complicado.

    Fiz as contas todas - até das fraldas... e pensei muito, muito, muito. Mas depois, cheguei à conclusão que não havia caminhos perfeitos nem bons. Ter este filho ia ser, para mim, complicado e pensei mesmo que poderia mais tarde reflectir nele todas as frustrações e marcas deste começo, já de si tão mau. Esta criança já viria ao mundo com uma carga enorme negativa. Sei lá se não viria a ter mais tarde uma depressão. E pela amostra que tive com o pai do meu filho, acho que a minha vida nunca mais ia ter sossego e paz. Que tipo de Mãe seria eu? Depois também pensei que estava a usar esta gravidez como uma bóia de salvação para os meus problemas afectivos. Isto é, o estar já com 36 anos e achar que era a última oportunidade da miha vida, o achar que nunca vou encontrar alguém para partilhar uma relação comigo e assim ter um filho num seio de amor... Isto porque estou sempre a achar que não vou arranjar namorado...

    Se calhar, esta IVG veio mostrar-me muitas outras coisas, como ser mais positiva em relação à minha vida afectiva, gostar mais de mim e acreditar que a vida tem coisas melhores ainda reservadas para mim. Eu ia ter este filho como se fosse a última hipótese de ter um. E a que preço?

    Quando fiz este raciocínio percebi também que estava a querer ter este filho se calhar pelas razões erradas... Porque se não tivesse engravidado, não estaria sequer nos meus planos para já. Estaria a viver a minha vida normalmente, à espera de encontrar um pai certo para isso.

    A pouca família que soube e que me acompanhou achou que esta fora a decisão correcta...

    Eu sei que ponderei tudo ao mínimo detalhe. Sei que não tomei a decisão levianamente. Mas ficou em mim uma marca tão profunda que às vezes já pensei em me matar... Depois tento fazer o raciocínio que me levou a tomar esta decisão. E a ser pragmática.

    Há muitas mais mulheres que o fazem do que possamos pensar. Disso tive a prova. São dezenas ou mesmo centenas todos os dias.

    Se me vou perdoar não sei... Acho que vai ser díficil, mas tenho de o fazer um dia, ou pelo menos tentar seguir em frente com a minha vida à procura de um dia para poder finalmente ter um filho nos braços e de um homem melhor.

    É tudo muito fácil de falar antes, mas quando se está na situação as coisas são bem mais complicadas. E a realidade abate-se esmagadora sobre nós.

    Espero que a vida me perdoe, porque foi uma injustiça brutal este episódio, eu que ainda por cima passo a vida a ajudar os outros... não merecia ter sido posta nesta situação.

    Por agora não vivo... sobrevivo. Amanhã espero recuperar a alegria de viver.

 

Tuareg"

 


MSA87 - 18 Março 2011

    "Penso que ,após o nosso tempo de luto da IVG que realizámos, qualquer uma de nós acaba por chegar à conclusão de que aquilo que os nossos amigos, familiares, psicólogos, etc, nos disseram estava certo, e que tomámos a decisão acertada de acordo com a nossa vida naquele preciso momento e a pensar num futuro próximo. Contudo, há sentimentos que permanecem e não conseguimos racionalizar por mais que tentemos!

    Quanto a mim, se eu não tivesse abortado, o meu filho seria agora recém-nascido - teria sido possível! Apelando à racionalidade e ao pragmatismo é mais ou menos fácil compreender que, embora de facto existisse a possibilidade de ter tido este filho as minhas razões para não ter superaram, naquele momento de crise, as razões emocionais que de certa forma me fizeram vincular àquele que teria sido um bebé. Não foi por falta de reflexão, não foi leviano, foi incrivelmente dificil a decisão que tomei pelas mais variadas razões que já apresentei anteriormente neste forum.

    No entanto, por mais que nos lembrem da racionalidade inerente a todo este doloroso processo penso que existe inevitavelmente um sentimento que nunca vai desaparecer: o de egoísmo! Muitas vezes falei sobre ele, até mesmo com a psicóloga que me tentou fazer ver que não se tratou de egoísmo, mas sim de uma decisão que teve em conta o meu padrão de maternidade, e tudo o que nela está incluso - situação pessoal, familiar, afectiva, financeira, social, etc, etc, etc! Concordo, mas nada disso tirou este peso de cima.

    Afinal de contas, teria sido possível! Eu é que não quis...! Quis acabar o curso, que consegui, e organizar-me mentalmente destes 4 anos muito intensos, que deixaram sequelas de cansaço!

    Por isso, não me quis submeter a mim e a ele a uma condição que a priori, eu não podia antecipar e ver como iria resultar uma gravidez não planeada e, de certa forma, indesejada, fruto de uma relação vazia... que tipo de mãe seria eu? Que vida daria eu ao meu filho? O peso da culpa e a dor permanecem, mas o tempo tem ajudado e muito!
    Hoje, sou enfermeira e procuro com muita dificuldade o meu primeiro emprego. O meu filho teria nascido este mês, e não há um único dia em que não pense em tudo isto. Se o tivesse tido não sei como estariamos neste preciso momento mas, embora sem duvida nenhuma que efectivamente ia gostar dele incondicionalmente, penso que não seria feliz.

    Se sou feliz agora? Não consigo ainda responder, mas estou perto! A dor e a culpa são um preço a pagar para alcançar uma felicidade a médio ou a longo prazo, e acredito que a vou voltar realmente sentir! O tempo vai certamente ajudar.

 

MSA87"

 


Adriana Braga - 27 Dezembro 2010

Acerca de alguns dos testemunhos do fórum (http://forumsaude.com.pt/conversa/382/fiz-uma-ivg-interrupcao-voluntaria-da-gravidez-aborto - atualmente desativado)

 

 

"Boa noite,

    Antes de mais os meus parabéns a todas pela coragem de comunicarem abertamente um assunto tão delicado como é o aborto.

    Tenho 23 anos e sou estudante de psicologia. Este ano, no âmbito da realização da tese de mestrado decidi investigar o tema [“Maternidade Interrompida”: Aspectos Emocionais, Ansiedade, Depressão e Luto face à Interrupção Espontânea, Médica e Voluntária do processo gravídico].

    Tenho feito leitura sobre a temática e agora, nesta fase mais avançada consigo ver este tema de uma outra forma, com maior compreensão.

    Portugal não está preparado para lidar com o aborto seja ele de que tipo for, isto porque está intimamente relacionado com as questões da morte e por isso é um tema tabu.

    No aborto espontâneo, os familiares quase nunca reconhecem a perda e o sofrimento desses pais porque eles de facto sentem a perda de um filho, assim como as mulheres/companheiros de alguém que efectua uma IVG. Só que a IVG é vista como se a decisão fosse fácil, mas não é... sei que existe a culpa, o sentimento de perda de um filho, a sensação de desprezo e incompreensão por parte dos outros (incluindo profissionais de saude o que não deveria suceder nunca), é preciso passar também por um processo de luto para que se consiga ultrapassar este acontecimento de dor...

    Por isso que decidi deixar aqui este comentário, para vos dizer que, apesar de nunca ter passado por isso, compreendo a vossa posição e vossa falta de apoio e é com o meu trabalho que pretendo mudar um pouco isso. esta questão tem e deve ser explorada para que no futuro as pessoas saibam a melhor forma de lidar com a situação, isto se me deixarem investigar porque já vi um pedido meu de colaboração ser recusado no ambito hospitalar. Mas se conseguir fazê-lo, um dia postarei aqui os meus resultados para que toda a gente tenha acesso.

Muita força!

Cumprimentos,
Adriana Braga"